Quem sou eu?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Soneto

"Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o Leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela durmia!

Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das águas embalada,
Era um anjo entre nuvens d'alvorada!
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no peito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!"

Álvares de Azevedo

Um comentário:

  1. epica, lacrimosa, cradle, tim burton.. not bad.

    btw, como seria uma lâmpada sombria? Fiquei pensando em vários modelos, o máximo que consigo é uma idéia de... velho.

    e...
    pain of salvation?

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Lembranças de Morrer

"Quando em meu peito, rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixo o tédio
Do deserto, o poente caminheiro
- Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
(...)

Só levo uma saudade - é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe! pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!
(...)

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
- Foi poeta - sonhou - e amou a vida."